31 de dezembro de 2009

'Somos condenados a ser livres'


    Década de 40. Segunda guerra mundial. O mundo mais uma vez está de ponta cabeça, o homem mais uma vez optou por confirmar sua imagem de lobo do próprio homem. As misérias da vida - que são algumas vezes absolutamente dispensável - bate na face dos que ainda conseguiram manter sua sanidade mostrando que era preciso aprender com os erros, que era necessário tomar posição. Nesse caos, aparece um Francês querendo dar sua contribuição para a orientação de uma época atordoada, o nome dele? Jean Paul Sartre.
    Sartre é o pai do existencialismo ateu, corrente de pensamento fundada por Kierkegaard. Só que enquanto este era religioso, Sartre já não conta mais com Deus, centra - assim como Kierkegaard - o seu pensamento na existência individual. Sartre cita, por exemplo, Dostoievski, “Se Deus não existe, tudo é permitido”, essa era a chave de seu existencialismo, o homem só. Parece um pouco assustador não? Porque além das questões de onde vim, para onde vou, se tudo é permitido somos inteiramente responsáveis por nossas atitudes, sou apenas eu o responsável pelo que sou. É ai que aparece uma conhecida frase desse filósofo, “Somos condenados a ser livres”. É então que se abre a possibilidade de sermos qualquer coisa, certo? Não! Não ser coisa alguma é o principal traço do sujeito para Sartre. Enquanto o vir a ser algo é a negação da minha liberdade.
    Como isso pode ter sido importante naquele período de conflito então? Simples, é porque não tenho nada que me prende, eu posso ser qualquer coisa a qualquer momento, me situo em uma ou outra posição, tomo uma ou outra atitude, fico inerte com a situação ou me revolto, a escolha é nossa, não sou algo dado e acabado, Heráclito já disse a muito tempos atrás que não podíamos tomar banho duas vezes no mesmo rio, eu estou sendo o tempo todo, e só a consciência de cada um que cria o eu, e também cria o mundo, por isso, a liberdade é a liberdade pra mudar, pra transformar, a todo momento, a toda hora. Entretanto, isso que parece ser um jogo de disfarces inconseqüentes já que posso ser qualquer coisa em qualquer momento, é na verdade jogar em nossas mãos a responsabilidade pelo que somos, e pelo o que hoje é o mundo. Portanto foi um golpe na face de cada um pelo caos que se tinha, porque se era caos esse foi criado pela liberdade que cada um tem de ser o que se é. E além de dizer que somos inteiramente responsáveis pelo o que acontece ao nosso redor, foi principalmente um convite a mudança, a mudança do eu, do mundo.
    Se os erros de hoje são filhos dos erros do passado, é verdade também que os erros de amanhã são filhos dos erros do presente. Fazendo então essa relação com a filosofia de Sartre, é por isso a sua importância hoje ainda, pelo o que ela pode nos ensinar. Pode não haver guerras mundiais como aconteceu em outros períodos, mas há destruições muito maiores em cada esquina, o grande problema é que às vezes nos acostumamos com o caos, o anormal se tornou normal, o caos para muitos passou a ser natural. A filosofia de Sartre aparece então como um convite a liberdade, que é também responsabilidade pela criação de um novo mundo, assim como de nós mesmos. Fica o convite, e o dizer de que somos responsável por tudo o que acontece nesse mundo, é inteligente pensar em mudar o mundo, é sábio pensar em mudar a si mesmo, a tragédia e a beleza começa em cada um de nós.


4 comentários:

João Paulo disse...

'a tragédia e a beleza começa em cada um de nós', bom o texto, ele nos faz refletir sobre o nosso papel no mundo.

Continue com o blog!

Elane disse...

Excelente texto! fiquei surpresa com o que li. Incrível como vc condensou parte da filosofia de Sartre nesse texto.
Vou salvar seu blog aqui, pode me servir de inspiração..

Unknown disse...

Muito bom, amigo. E já que estás a inspirar nossas mentes, podias postar com mais frequência.

Cristiano Contreiras disse...

Você sempre intenso e propondo reflexão!

abraço, sumido!