Viagem e encontro.
Quando vamos viajar é bem normal surgir algumas perguntas, o que posso precisar? O que preciso realmente levar? Nesse momento vem então aquela situaçãozinha chata de ter que optar por algumas coisas. Pensamos nos livros que podemos ter vontade de ler, nas músicas que posso querer escutar, no conforto que posso querer ter, as roupas que vou querer usar. Mas não podemos levar tudo, e mesmo assim temos que partir...
No decorrer da viagem acabamos inevitavelmente descobrindo algo que esquecemos, ou então, algo que deixamos de lado, e que naquele momento de escolha acabou não sendo considerado como importante. É quando se dá a possibilidade muitas das vezes de perceber que é impossível não haver ausência, isso tanto de coisas quanto de pessoas. Nosso coração reclama, faz birra, aponta pra onde quer ir, reclama querendo voltar... A verdade é que temos que navegar para além do crepúsculo. O amor prefere a luz das velas, que cada momento seja observado com a luz certa, perceberemos assim o encanto do partir, da viagem, da ausência...
É na ausência que podemos descobrir o valor das coisas que nos pertence, das pessoas que estão ao nosso lado, é à distância nos dando a oportunidade de olhar o mundo ao qual pertencemos, e o quanto para nós ele é importante, e isso através do espaço de saudade que para nós se impõe, é a vida dizendo a nós que precisa também de vazio, um vazio que ensina. E já disse muito bem o poeta “é no vazio da distância que vive a saudade...”. Saudade esta que mira na direção da vontade do coração, dizendo qual é o seu lugar.
É então essa saudade que nos faz ver aquilo que para nós é essencial, e o contrário também é verdadeiro, é na ausência que também podemos perceber o quanto muitas coisas de lado poderiam ser deixadas. É a saudade, a ausência, a distância indicando quem somos, o que amamos, o que precisamos para continuar sendo. Sendo eu, com tudo o que me pertence e que ainda pode me pertencer. É o reconhecimento do que é meu a partir do reconhecimento de um território que não me pertence, que não me representa. Sendo então esse espaço uma oportunidade de ver o que é nosso cerne, qual a seiva que precisamos nos alimentar para fortalecer nossa raiz.
Por isso a beleza da viagem, do partir. Já que acaba nos dando a oportunidade de fitar o fundamental para nós, assim também como nos dar oportunidade de ver novas realidades, e perceber que muitas bagagens que carregamos em nossa vida são desnecessárias. A viagem, portanto, também nos dar a possibilidade de nos tornarmos mais leves, fazendo com que possamos nos livrar de pesos desnecessários. Mas para ver é preciso olhar com a luz certa. Essa luz pode ser a leveza, é necessário ser leve, viajar leve, não levar tanto peso, este só irá, na maioria das vezes, impedir com que eu encontre o outro, outras coisas. Quem leva muito peso se preocupa demais e acaba não percebendo a beleza do que está a sua volta, a mística que se esconde em cada gesto, em cada objeto, em cada ser. E que não pode ser tocada por olhares apressados e preocupados. A simplicidade é também leveza, é fundamental em todos os momentos, porque ela prende nossos olhos naquilo que verdadeiramente vale à pena. Verdade mesmo é que apenas com a luz certa poderemos ouvir a música que é cantada a todo instante, nessas minissonatas que a vida nos dar.