15 de fevereiro de 2010

Qual o sentido?

     O que amo quando te amo?  Essa é uma frase de Santo Agostinho que conheci a pouco tempo, e que acabou por me levar a uma profunda reflexão. Além da loucura que amar já é, e de todas as desrazões que se põem quando esse sentimento em nosso peito se coloca, ela sugere o questionamento, o pensar sobre o sentido desse sentimento. Porque o tenho aqui? Porque amo essa pessoa e não outra? O que há de diferente? Qual o sentido? E todas essas questões por sua vez, acabaram por me levar a fazer uma ligação com outra frase do poeta Rubem Alves “nossas almas são bibliotecas. Nela se encontram as estórias que amamos [...] e elas revelam a forma do nosso desejo”. 
     Essa frase do Rubem para mim foi fundamental, ela acabou por me ajudar a pensar sobre a frase de Agostinho. E se nós criamos formas, moldes para o nosso amor? Faz sentido, pois, se nossas almas são bibliotecas, elas têm as suas estórias nas estantes que com o tempo foram sendo guardadas, tendo elas, lá no seu fundo, o que pode despertar em mim o amor, aquilo que vou encontrar no outro, o outro que irá se encaixar justamente nas estórias que guardamos, o outro que virá completar as páginas dos livros que guardamos em nossas almas, que fará talvez de um pequeno conto, uma epopéia digna de fazer inveja a Afrodite. 
     A idéia de criarmos moldes parece ainda fazer mais sentido, quando aparecem pessoas que são especiais em nossa vida. Quantas vezes surgem pessoas que se olharmos utilizando somente a razão iria se encaixar dentro do perfil que parece ser adequado a nós. Tipo aquelas que nos fazem perguntar o que mais podemos querer? No entanto, sentimento não é coisas assim digamos racional, não são equações matemáticas, não dá pra resolver de qualquer forma.
     Não seria bem mais fácil se ao encontrarmos uma pessoa, e que ao ver nela características que eu considerasse importante para a vida eu assim conseguisse ama - lá, mas “podemos prometer ações, mas não podemos prometer sentimentos”. Porque com o coração as coisas não funcionam dessa forma, ele é tirano, é ele quem escolhe quem ele vai amar, e nesse momento nada de razão, não é ela quem opta por alguém, é coisa que não sabemos explicar, a biblioteca que criamos – e que não faço a mínima idéia de que isso possa ser verdadeiro ou não, são apenas divagações – acaba por fazer a opção. Será essa a causa do amor a primeira vista? Será que é esta uma das explicações?
    Apesar de tudo. De não saber o porquê do que amo, e nem como crio essa tal da biblioteca, percebo o quanto isso é mágico. É verdade que seria bem mais fácil se conseguíssemos amar aquela pessoa que está de acordo com nossos valores, nosso jeito de pensar, mas às vezes não, às vezes escolhemos aquele outro que é outro, outro mesmo, completamente diferente. Poderia ser mais fácil, mas talvez ao mesmo tempo fosse menos mágico. Se somos mesmo bibliotecas, somos de sonhos, nada de moldes toscos arquitetados pela frieza da razão, mas construída por sonhos, “castelos no ar” que quando encontramos o outro que se encaixa em nosso molde, este vai dar alicerces ao castelo. Sonhos que se constroem e se reconstroem com o tempo, e assim vamos vivendo nossas estórias de amor que tomam forma através de braços, abraços, gestos, moldes quentes criados por nossos gestos, nossos toques. Sonhos. Sonhos de amor, de felicidade. “Se você já construiu castelos no ar não tenha vergonha deles, estão onde devem estar, agora trate de dar alicerces”.

31 de dezembro de 2009

'Somos condenados a ser livres'


    Década de 40. Segunda guerra mundial. O mundo mais uma vez está de ponta cabeça, o homem mais uma vez optou por confirmar sua imagem de lobo do próprio homem. As misérias da vida - que são algumas vezes absolutamente dispensável - bate na face dos que ainda conseguiram manter sua sanidade mostrando que era preciso aprender com os erros, que era necessário tomar posição. Nesse caos, aparece um Francês querendo dar sua contribuição para a orientação de uma época atordoada, o nome dele? Jean Paul Sartre.
    Sartre é o pai do existencialismo ateu, corrente de pensamento fundada por Kierkegaard. Só que enquanto este era religioso, Sartre já não conta mais com Deus, centra - assim como Kierkegaard - o seu pensamento na existência individual. Sartre cita, por exemplo, Dostoievski, “Se Deus não existe, tudo é permitido”, essa era a chave de seu existencialismo, o homem só. Parece um pouco assustador não? Porque além das questões de onde vim, para onde vou, se tudo é permitido somos inteiramente responsáveis por nossas atitudes, sou apenas eu o responsável pelo que sou. É ai que aparece uma conhecida frase desse filósofo, “Somos condenados a ser livres”. É então que se abre a possibilidade de sermos qualquer coisa, certo? Não! Não ser coisa alguma é o principal traço do sujeito para Sartre. Enquanto o vir a ser algo é a negação da minha liberdade.
    Como isso pode ter sido importante naquele período de conflito então? Simples, é porque não tenho nada que me prende, eu posso ser qualquer coisa a qualquer momento, me situo em uma ou outra posição, tomo uma ou outra atitude, fico inerte com a situação ou me revolto, a escolha é nossa, não sou algo dado e acabado, Heráclito já disse a muito tempos atrás que não podíamos tomar banho duas vezes no mesmo rio, eu estou sendo o tempo todo, e só a consciência de cada um que cria o eu, e também cria o mundo, por isso, a liberdade é a liberdade pra mudar, pra transformar, a todo momento, a toda hora. Entretanto, isso que parece ser um jogo de disfarces inconseqüentes já que posso ser qualquer coisa em qualquer momento, é na verdade jogar em nossas mãos a responsabilidade pelo que somos, e pelo o que hoje é o mundo. Portanto foi um golpe na face de cada um pelo caos que se tinha, porque se era caos esse foi criado pela liberdade que cada um tem de ser o que se é. E além de dizer que somos inteiramente responsáveis pelo o que acontece ao nosso redor, foi principalmente um convite a mudança, a mudança do eu, do mundo.
    Se os erros de hoje são filhos dos erros do passado, é verdade também que os erros de amanhã são filhos dos erros do presente. Fazendo então essa relação com a filosofia de Sartre, é por isso a sua importância hoje ainda, pelo o que ela pode nos ensinar. Pode não haver guerras mundiais como aconteceu em outros períodos, mas há destruições muito maiores em cada esquina, o grande problema é que às vezes nos acostumamos com o caos, o anormal se tornou normal, o caos para muitos passou a ser natural. A filosofia de Sartre aparece então como um convite a liberdade, que é também responsabilidade pela criação de um novo mundo, assim como de nós mesmos. Fica o convite, e o dizer de que somos responsável por tudo o que acontece nesse mundo, é inteligente pensar em mudar o mundo, é sábio pensar em mudar a si mesmo, a tragédia e a beleza começa em cada um de nós.


9 de outubro de 2009

Viagem e encontro.


    Quando vamos viajar é bem normal surgir algumas perguntas, o que posso precisar? O que preciso realmente levar? Nesse momento vem então aquela situaçãozinha chata de ter que optar por algumas coisas. Pensamos nos livros que podemos ter vontade de ler, nas músicas que posso querer escutar, no conforto que posso querer ter, as roupas que vou querer usar. Mas não podemos levar tudo, e mesmo assim temos que partir...
    No decorrer da viagem acabamos inevitavelmente descobrindo algo que esquecemos, ou então, algo que deixamos de lado, e que naquele momento de escolha acabou não sendo considerado como importante. É quando se dá a possibilidade muitas das vezes de perceber que é impossível não haver ausência, isso tanto de coisas quanto de pessoas. Nosso coração reclama, faz birra, aponta pra onde quer ir, reclama querendo voltar... A verdade é que temos que navegar para além do crepúsculo. O amor prefere a luz das velas, que cada momento seja observado com a luz certa, perceberemos assim o encanto do partir, da viagem, da ausência...
    É na ausência que podemos descobrir o valor das coisas que nos pertence, das pessoas que estão ao nosso lado, é à distância nos dando a oportunidade de olhar o mundo ao qual pertencemos, e o quanto para nós ele é importante, e isso através do espaço de saudade que para nós se impõe, é a vida dizendo a nós que precisa também de vazio, um vazio que ensina. E já disse muito bem o poeta “é no vazio da distância que vive a saudade...”. Saudade esta que mira na direção da vontade do coração, dizendo qual é o seu lugar.
    É então essa saudade que nos faz ver aquilo que para nós é essencial, e o contrário também é verdadeiro, é na ausência que também podemos perceber o quanto muitas coisas de lado poderiam ser deixadas. É a saudade, a ausência, a distância indicando quem somos, o que amamos, o que precisamos para continuar sendo. Sendo eu, com tudo o que me pertence e que ainda pode me pertencer. É o reconhecimento do que é meu a partir do reconhecimento de um território que não me pertence, que não me representa. Sendo então esse espaço uma oportunidade de ver o que é nosso cerne, qual a seiva que precisamos nos alimentar para fortalecer nossa raiz.
    Por isso a beleza da viagem, do partir. Já que acaba nos dando a oportunidade de fitar o fundamental para nós, assim também como nos dar oportunidade de ver novas realidades, e perceber que muitas bagagens que carregamos em nossa vida são desnecessárias. A viagem, portanto, também nos dar a possibilidade de nos tornarmos mais leves, fazendo com que possamos nos livrar de pesos desnecessários. Mas para ver é preciso olhar com a luz certa. Essa luz pode ser a leveza, é necessário ser leve, viajar leve, não levar tanto peso, este só irá, na maioria das vezes, impedir com que eu encontre o outro, outras coisas. Quem leva muito peso se preocupa demais e acaba não percebendo a beleza do que está a sua volta, a mística que se esconde em cada gesto, em cada objeto, em cada ser. E que não pode ser tocada por olhares apressados e preocupados. A simplicidade é também leveza, é fundamental em todos os momentos, porque ela prende nossos olhos naquilo que verdadeiramente vale à pena. Verdade mesmo é que apenas com a luz certa poderemos ouvir a música que é cantada a todo instante, nessas minissonatas que a vida nos dar.


30 de setembro de 2009


A importância de não nos trair

“Você traiu Tessa plantando flores”. Essa é uma das diversas frases do filme Jardineiro fiel baseado na obra do escritor Frances John Le Carré, frase que pode nos fazer pensar em muitos significados, coisas. Por exemplo, como trair o outro fazendo aquilo que é essencial para nós mesmos? Pergunta com uma resposta simples? Talvez... 
Começo então minha meditação. Para Justin algo fundamental na sua existência eram as plantas, para elas ele dedicava parte de seu tempo. Cuidava de seu jardim, do cultivo de cada dia. A beleza do cuidado ele dava para seu jardim, algo que posso compreender como belíssimo, dedicar parte do tempo ao cultivo do belo. Talvez entendesse que é só através do empenho e do cuidado de cada dia que essa realidade de beleza pode perdurar. E era exatamente o cuidado que ele dedicava ao jardim que fazia aquilo fundamental para ele, entende-se a partir daí que o que torna as coisas fundamentais para nós é o cuidado dispensado.
Tessa era já um pouco diferente. Era sonhadora – quantas vezes não é isso que nos falta, temos que sonhar mais, deixar de lado muitas vezes esse pragmatismo tolo. Tolstoi já dizia a tempos atrás “se você já construiu castelos no ar não tenha vergonha deles, estão onde devem estar, agora trate de dar-lhes alicerces” é projetar algo e buscar, a possibilidade do sonho nunca acaba, assim também como a possibilidade de sua realização. Tessa tinha um ardor, uma ternura, um amor muito maior, que por certo não caberia em um simples jardim de plantas, o seu jardim era o mundo, suas flores eram as pessoas, era para essas que dedicava seu cuidado. Ela preferia dedicar sua vida para aqueles que sofriam, para os que eram deixados de lado, mas que nem por isso perderam sua beleza, como um diamante que mesmo empoeirado, sujo, jamais poderá perder sua essência, sua beleza.
Mas a questão central ainda fica. Como podemos trair ao outro fazendo aquilo que é talvez essencial para nós? Traímos quando colocamos as nossas satisfações acima da do outro. É fundamental sim a felicidade minha, até porque não posso dar ao outro tristeza, isso é completamente dispensável, já temos misérias demais. Mas quantas vezes na busca dessa felicidade negligenciamos o outro. Justin cuidava da beleza, Tessa também cuidava. Cada um dava o cuidado para com aquilo que era mais importante e que fazia importante através disso. Só que Tessa colocava o seu cuidado, criava o fundamental no outro, e para o outro. A felicidade dela consistia em lutar para que outras pessoas fossem felizes, para que o mundo fosse mais justo. Justin acabou negligenciando isso, não que não se importasse com o outro, acredito que sua posição era de neutralidade, e a neutralidade é também uma escolha, nela permitimos que outros possam então agir, e as vezes essa ação é bastante nociva, e foi no caso de Justin. Na vida temos apenas duas opções, ou se aprende, ou se aprende. Justin aprendeu, mas fez isso através da dor, que é a forma mais dolorosa que temos de assimilar lições para a vida. A partir daí pode cuidar da beleza do seu jardim, mas dando sua parcela de contribuição para os jardins do mundo. O que fica então é a lição de que é necessário ser feliz sim, assim como também é necessário que o outro seja feliz, é a estrada de mão dupla, é a mensagem cristã, a “felicidade só é completa quando compartilhada”. Por isso, não traiamos os outros, e nem a nós mesmos. Compartilhemos cuidado um com outro, cuidemos da beleza, cuidemos dos jardins.