30 de setembro de 2009


A importância de não nos trair

“Você traiu Tessa plantando flores”. Essa é uma das diversas frases do filme Jardineiro fiel baseado na obra do escritor Frances John Le Carré, frase que pode nos fazer pensar em muitos significados, coisas. Por exemplo, como trair o outro fazendo aquilo que é essencial para nós mesmos? Pergunta com uma resposta simples? Talvez... 
Começo então minha meditação. Para Justin algo fundamental na sua existência eram as plantas, para elas ele dedicava parte de seu tempo. Cuidava de seu jardim, do cultivo de cada dia. A beleza do cuidado ele dava para seu jardim, algo que posso compreender como belíssimo, dedicar parte do tempo ao cultivo do belo. Talvez entendesse que é só através do empenho e do cuidado de cada dia que essa realidade de beleza pode perdurar. E era exatamente o cuidado que ele dedicava ao jardim que fazia aquilo fundamental para ele, entende-se a partir daí que o que torna as coisas fundamentais para nós é o cuidado dispensado.
Tessa era já um pouco diferente. Era sonhadora – quantas vezes não é isso que nos falta, temos que sonhar mais, deixar de lado muitas vezes esse pragmatismo tolo. Tolstoi já dizia a tempos atrás “se você já construiu castelos no ar não tenha vergonha deles, estão onde devem estar, agora trate de dar-lhes alicerces” é projetar algo e buscar, a possibilidade do sonho nunca acaba, assim também como a possibilidade de sua realização. Tessa tinha um ardor, uma ternura, um amor muito maior, que por certo não caberia em um simples jardim de plantas, o seu jardim era o mundo, suas flores eram as pessoas, era para essas que dedicava seu cuidado. Ela preferia dedicar sua vida para aqueles que sofriam, para os que eram deixados de lado, mas que nem por isso perderam sua beleza, como um diamante que mesmo empoeirado, sujo, jamais poderá perder sua essência, sua beleza.
Mas a questão central ainda fica. Como podemos trair ao outro fazendo aquilo que é talvez essencial para nós? Traímos quando colocamos as nossas satisfações acima da do outro. É fundamental sim a felicidade minha, até porque não posso dar ao outro tristeza, isso é completamente dispensável, já temos misérias demais. Mas quantas vezes na busca dessa felicidade negligenciamos o outro. Justin cuidava da beleza, Tessa também cuidava. Cada um dava o cuidado para com aquilo que era mais importante e que fazia importante através disso. Só que Tessa colocava o seu cuidado, criava o fundamental no outro, e para o outro. A felicidade dela consistia em lutar para que outras pessoas fossem felizes, para que o mundo fosse mais justo. Justin acabou negligenciando isso, não que não se importasse com o outro, acredito que sua posição era de neutralidade, e a neutralidade é também uma escolha, nela permitimos que outros possam então agir, e as vezes essa ação é bastante nociva, e foi no caso de Justin. Na vida temos apenas duas opções, ou se aprende, ou se aprende. Justin aprendeu, mas fez isso através da dor, que é a forma mais dolorosa que temos de assimilar lições para a vida. A partir daí pode cuidar da beleza do seu jardim, mas dando sua parcela de contribuição para os jardins do mundo. O que fica então é a lição de que é necessário ser feliz sim, assim como também é necessário que o outro seja feliz, é a estrada de mão dupla, é a mensagem cristã, a “felicidade só é completa quando compartilhada”. Por isso, não traiamos os outros, e nem a nós mesmos. Compartilhemos cuidado um com outro, cuidemos da beleza, cuidemos dos jardins.

2 comentários:

Anônimo disse...

Olá Wilson, muito bom seu texto e muito sensível. É o que sempre digo: "sensibilidade não se aprende, se tem". Obrigada por comentar no meu blog. É uma pena que ele (meu blog) esteja tão abandonado. Abraço!!

Ricardo disse...

Wilson, parabéns pelo texto. Assisti esse filme também - excelente por sinal. E achei muito interessante o texto que construiu a partir dessa frase bem emblemática.